Coluna do José Augusto

 

 

As sete lágrimas de um Preto-Velho 58 anos depois.

 

 Coluna de 6 de Dezembro de 2019

 

 

 

 

Por volta de 1961, em um típico terreiro de Umbanda, pequeno e simples, ocorreu um diálogo entre um umbandista e um preto-velho que, por ordem da Espiritualidade, posteriormente fora transformado em um livro, cujo nome é Lições de Umbanda (e Quimbanda) na palavra de um Preto-Velho, e cuja autoria foi de W. W. da Matta e Silva.

 

Nesta obra, o autor registrou um triste lamento deste preto-velho. E este lamento veio num texto chamado As sete lágrimas de um Pai-Preto, onde é mostrada a profunda tristeza dele com o comportamento humano.

 

Pois bem. Esta conversa se passou há 58 anos. Como seria hoje a conversa de um preto-velho com seu filho de fé? Seria numa típica terreira de umbanda, com paredes de madeira, chão de cimento, bancos duros também de madeira, numa peça de garagem ou da própria casa, ou naquela famosa “pecinha” construída as pressas e com pouco dinheiro pelos pais de santo?

 

E como seriam os pais de santos e seus filhos? Como seriam eles em pleno 2019? Como seriam os frequentadores? Quais seriam seus problemas?

 

E como seria a Umbanda de 2019? Modernizados os aparelhos, teria sido ela também modernizada pela nova sociedade?

 

Por fim, este pai velho teria lágrimas para chorar em 2019?

 

A primeira lágrima deste Velho Guia seria para os pobrezinhos que vão até as Terreiras pedir ajuda. Quantas mães cansadas e idosos sofridos entram nas casas com as roupas simples e pés quase descalços pelo surrado sapatinho ou sandália. Um triste contraste com aquelas casas de religião onde há tanta riqueza exposta quanto joias nos trabalhadores.

 

A segunda lágrima deste velho trabalhador cairia logo após a primeira, quando estes pobrezinhos não tivessem dinheiro para pagar pelo atendimento espiritual, sendo excluídos mais uma vez do socorro.

 

Por certo Jesus, ou qualquer outro antigo espírito da Umbanda ou de qualquer outra religião de matriz africana, que estivesse na forma humana, também não poderia ser atendido. E aqui já vai a terceira lágrima.

 

A quarta lágrima, a mais vermelha de todas, seria por causa da matança das criaturinhas mais amadas pelo nosso Pai, que enche de sangue as mãos dos mercadores da morte, em troca de favores não merecidos e pagamentos, esquecendo que Jesus jamais ordenaria e consentiria com este comportamento cruel.

 

Por sua vez, o quinto e o sexto lamento do Guia Velho seria pelo desligamento dos humanos com as questões espirituais. Vivemos no Mundo Material, mas viemos do Mundo Espiritual. Somos seres espirituais vivendo uma rápida experiência humana, e não ao contrário.

 

No entanto, estamos fechando nossos canais de comunicação com boa parte da Espiritualidade Superior, o que por via inversa abre os canais de comunicação do Baixo Astral, criando uma massa gigantesca de péssimos humanos, que logo depois se tornaram péssimos espíritos.

 

A sétima e ultima lágrima do Preto-Velho, sem qualquer dúvida, cairia por causa do mal que está se instalando rapidamente - não apenas na mente dos homens - mas em seu interior. Um mal diferente dos outros, um mal que desta vez vem quase invisível para nós, na forma da vaidade, do orgulho e da intolerância.

 

Um mal que nos faz humilhar o outro, tornando o outro também invisível. Um mal que invade qualquer coração desavisado e especialmente daqueles bem avisados. Um mal que provoca o triste sofrimento daqueles mais pobrezinhos e abandonados, excluindo justamente os que mais estão desprotegidos.

 

Mas daí já não chora apenas nosso Preto-Velho, mas todos os trabalhadores das Sete Linhas da Umbanda. Choram todos, num lamento infinito.

 

Pois bem. Ao que parece precisamos ajudar nossa Velha Umbanda a fazer sua parte, a ser tanto toda a espada quanto a ponta da espada, combatendo o Mal com o Bem, sendo o reflexo da Luz Divina na Terra, para que ao final da nossa missão, possamos dizer: combati o bom combate, acabei a corrida e permaneci na fé!

 

 

 

 

 

Saravá a todos.

 

 

 

José Augusto da Cunha Meira.

 

 

Uma breve conversa sobre progresso moral e intelectual

 Coluna de Novembro de 2019

 

“Fácil é chegar a um acordo com o ignorante; mas mais fácil ainda com o que sabe distinguir as coisas. Mas aos homens cheios do saber insignificante, ninguém é capaz de convencer.” (W. W. da Matta e Silva, no livro Umbanda de todos nós, 18ª ed., 6° Capítulo, Os sinais riscado).

 

Se extrai de toda obra espírita revelada por Jesus vários conceitos, seguidos de centenas de orientações de toda a ordem, que vieram fazer derrubar o véu da ignorância e auxiliar a caminhada de todos nós humanos e espíritos rumo a perfeição. Naturalmente que num artigo não dá para numerar todas as matérias, mas dá para indicar as duas principais: caridade e progresso moral-intelectual.

Hoje falarei rapidamente sobre o progresso moral-intelectual, ficando a caridade para a próxima coluna. É que o avanço moral-intelectual é fundamental para que os vivos e os mortos possam entender o que Pai nos fala e quer de nós, através dos Orixás, preto-velhos, caboclos e exus.

É chegado o tempo de se começar a buscar entender as lições e orientações que nos são fornecidas diariamente por meio de doutrina, da intuição, de amigos e diretamente nas sessões. Já vai longe o tempo em que nós humanos não conseguíamos compreender as histórias, as filosofias, os ensinamentos e as simples conversas dos profetas, dos doutrinadores, pastores e do Professor da Galiléia, que precisavam nos falar por meio de parábolas.

Este tempo acabou. E ele não vai voltar. Assim como não vai voltar a paciência dos Professores Espirituais com alunos desatentos. Já nos foi possibilitado usar da inteligência para conhecer muitas verdades, de compreender e não errar, para que o caminho do bem seja o escolhido e não do egoísmo (amor pessoal exagerado) e do orgulho (admiração pessoal exagerada). Através da mais simples inteligência, podemos identificar a mais simples e certa moral.

E do lado de cá, não sendo nosso Mestre Jesus, Orixás, preto-velhos, caboclos e exus, quem tem mais obrigação de repassar e ensinar moral? Ate nisto a Espiritualidade Superior pensou: os mais inteligentes ensinam os menos inteligentes; os pais ensinam aos filhos; os mais velhos ensinam aos mais jovens, os mais fortes ensinam aos mais fracos, os mais espiritualizados ensinam os menos espiritualizados, e por ai vai o progresso da humanidade e do próprio mundo espiritual, um ajudando o outro.

Agora é a nossa vez umbandistas, é a nossa oportunidade! É o que Xangô exige SEM ABRIR QUALQUER EXCEÇÃO. Então avante ao progresso irmãos. Sem paredes.

 

Saravá a todos.

 

José Augusto da Cunha Meira. Advogado, médim, doutrinador e expositor Umbandista. Estudioso das Religiões Afro Brasileiras e do Espiritsmo. Tem sua coluna aqui no site e também no programa Conversas de Terreiro.