EXCLUSIVO: o depoimento que fez Vaticano intervir nos Arautos do Evangelho
12/10/2019 23:18 em Novidades

Práticas heterodoxas como ordenações de sacerdotes sem formação e exorcismos no nome do fundador chamaram a atenção de Roma

Desde o final do mês de setembro, o grupo católico brasileiro Arautos do Evangelho está sob a tutela do Vaticano, como resultado de um processo de investigação iniciado em 2017. O estopim foi a circulação de um vídeo no qual os membros do grupo realizavam rituais de exorcismo heterodoxos, bem diferentes dos aprovados pela Igreja Católica. No documento divulgado pela Santa Sé no último dia 28, consta que as razões para as várias visitas de Roma à sede do Arautos e suas filiais no Brasil e a decisão de fazer uma intervenção nesta associação católica se devem a “deficiências no estilo de governo, na vida dos membros do Conselho, na pastoral vocacional, na formação de novas vocações, na administração (…)”, entre outras áreas. Por tudo isso, o Vaticano designou um cardeal para acompanhar os trabalhos dos Arautos.

VEJA teve acesso com exclusividade ao depoimento de um ex-membro dos Arautos do Evangelho que consta nos autos da investigação promovida pela Santa Sé e que, junto com outros relatos que corroboraram os principais pontos levantados pelo testemunho, levou à interferência no grupo. Os Arautos foram fundados em 2001 pelo brasileiro João Scognamiglio Clá Dias – conhecido como Monsenhor João Clá -, com aprovação papal. Caracterizado por seu hábito marrom e branco, com uma grande cruz no peito que remete aos trajes dos cavaleiros medievais, o grupo é derivado da antiga Sociedade de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, a TFP, movimento tradicionalista de extrema-direita criado em 1960, em São Paulo, por obra de Plinio Corrêa de Oliveira.

No depoimento entregue ao Vaticano, o religioso narra que, apesar de os Arautos do Evangelho terem publicamente abandonado alguns símbolos e atividades típicos da TFP (entre elas as virulentas campanhas públicas contra o comunismo) e aceitado as deliberações do Concílio Vaticano II (como a missa de frente para o fiel e no idioma local, ao invés do latim) e a obediência ao Papa, o movimento persiste com forte teor ultraconservador, avesso à figura de qualquer papa — especialmente a Francisco — e excessivamente apegado às figuras do fundador Plínio (PCO) e do próprio Monsenhor João Clá Dias (MJC), considerado o verdadeiro Pontífice. “No dia do conclave em que Francisco foi eleito, em 13 de março de 2013, MJC convocou seu clero para participar deste evento ao vivo em seu apartamento particular em São Paulo. Quando o resultado foi anunciado, a reação dele e de todos os presentes foi extremamente desagradável e enojada e comentou que o escolhido, “Bergoglio”, seria “pior ainda” que João XXIII e Paulo VI”, conta o religioso, que afirma que Clá Dias jamais aceitou a autoridade sequer de João Paulo II ou Bento XVI.

Fonte: Revista Veja

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